Se desejares com força poderás sempre esquecer uma coisa. Mas se desejares ainda com mais força não poderás nunca fazer com que não tenha acontecido. Mas será este o tempo verbal? Será esta a conjugação correcta? Careço de explicações pois o português nunca foi o meu forte. Em tudo o resto fui fraco. Mas uma coisa eu sei. Julgo que sei. Estes pensamentos levam-nos sempre ao ponto de partida. Ao local onde tudo começou. Onde tudo sempre começa. E onde me encontro agora. São 23 horas e mais alguns minutos que me custa a precisar. Está uma noite clara e quente, mas a minha pele está arrepiada como se respondesse a um primeiro toque. As primeiras vezes são sempre assim. Indecisas. Talvez de arrepiar, embora não saiba se é este o adjectivo ou a forma correcta de o dizer. O que sei é que acabo de entrar. O número que o cume da porta me diz está certo. Julgo que está. E não seria outro se tudo fosse de outra maneira. Também sei que está calor, muito calor. E que hoje me torno assassino. Sim, assassino. Aquele que mata. Aquele que decide. Sorrio ao pedir uma cerveja. Franzo um olho ao bebê-la. Está morta. Os dois seres de nojo que estão à minha frente ainda não. Ele, baixo como de vergonha. Ela, loira como nunca fora. Nem se o tivesse desejado muito.
No tecto, uma mosca desafia a sua curta existência, mas, astuta escapa ao crematório rumo à noite, pouco menos quente. No chão, com os seus pés inchados, o casal desencontra-se nas conversas, contrariando a provável ironia de se terem cruzado um dia na velha Calçada da Bica. Consigo imaginá-los, como pequenos fragmentos de um filme errático. Um a descer e o outro a subir. Podia ser o contrário. Riem-se de desdém. Um do outro. E eu de ambos.
Passo o dedo pela garrafa e sinto-me já em sintonia com a espelunca. Sujo. Peço outra cerveja e olho para a televisão que vomita banalidades. Uma retrospectiva do Elvis, julgo. “Only You”. Sempre odiei o Elvis. Mas não só ele. A loira falsa que se comove agora também odeio. Parece-me menos feia assim que uma lágrima ameaça brotar-lhe dos olhos. É o fim. É o início. Aconchego o revólver em segunda mão nas calças. Será simples como uma inevitabilidade. Custará apenas o segundo em que se tornará num facto. Eu mato, tu matas, ele mata, nós morremos, vós morreis, eles morrem. Penso que se conjuga assim. Será assim? Para mais ela canta. E ele ri de gozo, as faces avermelhadas. O porco. Tiro o revólver devagar. Tremo ligeiramente. Não está ninguém em redor. O bar está vazio. O bar está sempre vazio. E cheira a podre. Ou a morte. Talvez seja de mim.
Puxo o cão atrás e sinto uma ténue comoção. Continuo arrepiado. Ela canta emocionada… “Only You”. Julgo que se está a rir para mim quando o cano do revólver risca a barriga do balcão. Eu devolvo-lhe o sorriso. Quase cúmplice. Não. Cúmplice de verdade. Porventura pela primeira vez na vida. O sabor que navega na minha boca é agridoce. Pergunto-me se será sempre assim. Como se pudesse ser de outra maneira. Não juro, mas penso que a mosca voltou a entrar. Procurará o crematório no tecto? Estaria a noite ainda mais quente lá fora?
Fecho os olhos em contracção. Ou julgo cerrá-los. Podes obrigar alguém a fechar os olhos, mas ninguém a dormir. Estou acordado. E o tempo já quase se mastiga. Que horas serão? Nada mais será como dantes. Como se fizesse diferença. Como se tivesse um porquê. Como se não fosse tudo o mesmo. Abro-os agora, aos olhos. E vejo tudo em pormenor. Estou sentado. Primeira fila sobre o balcão. E são 00h00. Gosto de sessões que comecem a horas certas. Tudo se passa em tempo real. Presente do indicativo? Posso ver tudo. Sou aquele que tudo decide. Tenho sede.
- Mais uma cervejo… – avança o anão vermelho. E eu pergunto-me se ele teria dito cervejola caso o disparo à queima roupa não o tivesse interrompido. Penso que sim. Cervejola. Mas a bala atinge-o em cheio na têmpora. E o vermelho que jorra dela cai-lhe como um lenço demasiado garrido. A música é agora dos Beatles. Sempre odiei os Beatles. “All we need is love”. Ridículo, não?
Se pudesse condensar aquela fracção de segundo diria que o meu maior desejo seria assassinar a Humanidade inteira naquele disparo. Ou amá-la como um todo. Faria diferença se pudesse ser de outra maneira? Podes obrigar alguém a estar contigo, mas ninguém a amar-te. Ele derruba agora as prateleiras de vinho rasco e cai. Ela? Ela olha para mim, ainda comovida pelo Paul McCartney e demais farsantes. Não parece sequer assustada. Uma lágrima cai-lhe porém das faces gordas. Talvez os tenha amado na juventude e puxado os cabelos que nunca foram tão loiros como hoje. Sobre ela disparo duas vezes. Falho o primeiro. Não o segundo. Ela tropeça e agarra a garganta. Quase parece sorrir, mas talvez fosse do choro, nunca percebi a diferença. A lágrima, essa, sei que é a mesma. Única. Gostava de a lamber para saber se é agridoce. Se é este o sabor da primeira vez. E se pode haver outro sabor a partir de agora que tudo mudou. O pudor impede-me. Silêncio agora, apetece-me gritar! A televisão não o respeita. Apetece-me fuzilá-la, sem mais. Mas é uma boa televisão. Deve ter sido cara.
Estou tentado a dizer que fecho os olhos neste instante. Mas estou a abri-los ao ouvir o tsss da mosca a arder no crematório. Fará diferença? A televisão continua a falar dos grandes ícones da música. Elvis; Beatles. Sei lá que mais. Odeio todos. Quase tanto como o casal de nojo defronte mim. São 00h00. Mas poderia ser outra hora qualquer de um outro dia qualquer. A cerveja ainda está morta nas minhas mãos. O casal de nojo não. Mas será esse o tempo verbal? A conjugação correcta? Se desejares com força podes esquecer uma coisa. Mas se desejares ainda com mais força não poderás fazer com que não venha a acontecer.
- Mais uma cerveja – peço, cúmplice, para o casal. Tremo ainda. Está calor.
- Uma cervejola gelada? – pergunta o anão a rebentar de rubro e com um esgar de riso nos lábios, enquanto ela ajeita o cabelo loiro e de raízes negras, talvez para seduzir o Elvis. Limpa a lágrima com um lenço. Imundo.
- Não, morta – respondo. Como se pudesse ser outra coisa.
Jorge Flores
Impecável ou será implacável?